2 de fev de 2015

Ensaio sobre a falta d'água


A possibilidade de falta d'água é um cenário já abordado nos fóruns sobrevivencialistas há um bom tempo, antes mesmo da crise se abater. Não é surpreendente para aqueles que estiveram atentos às mudanças climáticas dos últimos anos que uma crise hídrica se se abateria sobre nós em algum momento. Eis que o momento chegou. Finalmente a mídia, e com isso o cidadão comum, começa a dar a devida importância à crise hídrica e esse tem se tornado assunto recorrente no mainstream dos noticiários.

Mas afinal, quais seriam as possíveis implicações dessa crise hídrica? Será que as pessoas estão mesmo entendendo a gravidade da situação?
Neste artigo ensaiarei sobre as possíveis consequências dessa crise, valendo principalmente para o sudeste, imaginando um cenário moderado, nem ruim demais, nem light demais.
Entendam que as datas são somente ilustrativas, eu não tenho como prever, se forem ocorrer de fato, em quanto tempo esses cenários poderão acontecer.

Fevereiro - Março.
O governo nega que há racionamento mas já admite "rodízio" do fornecimento de água, que obviamente ocorre nos bairros mais pobres e em alguns de classe média. O racionamento é uma possibilidade. As contas d'água são sobretaxadas como "medida de contingência". As chuvas continuam abaixo da média e mal são suficientes para manter os níveis dos reservatórios por muito tempo. Pelas previsões é assim que continuarápelo menos ate Abril.[1] Ao fim do período o Cantareira fecha com menos de 5% da capacidade. A possibilidade de "colapso do sistema"[2] é real. Cogita-se a abertura de poços artesianos, mas estes demandariam tempo e, ainda assim, não seriam a resolução para o problema mas apenas uma medida paliativa.
Enqanto isso caminhões pipa começam a vender água acima do preço e o povo, sem ter opção, tem de comprar.
O governo federal, prevendo que a seca se espalhará, abre uma licitação para garantir o abastecimento de água em Brasília.[3]
Surge a possibilidade da geração de energia ficar prejudicada com a falta de chuvas. Governo estuda "medidas de racionalização do uso".[4]

Abril - Maio.
O rodízio continua nas cidades mais afetadas. Com a entrada do outono o volume de chuvas deve diminuir ou manter-se estável.
O povo começa a sentir no bolso o preço da crise, as contas d'água ficaram mais salgadas. A média de chuva continua abaixo do esperado para o mês. O setor da agricultura sofre com a estiagem e, com menos chuva, tem queda na produtividade encarecendo o preço dos alimentos.
A capacidade de outras represas socorrerem o Cantareira termina. É autorizado o uso do terceiro e último volume morto. Poços artesianos começam a ser perfurados.
O Governo passa a limitar o uso de água para o comércio e indústria[2] através da aplicação de pesadas multas se houver consumo acima o permitido.
"Contenção" no uso de energia elétrica é uma possibilidade, dizem as autoridades. Manifestações começam a estourar nas cidades afetadas pela seca.

Junho - Julho.
Nível dos reservatórios volta a cair, e a situação fica perigosa. Os governantes são obrigados a anunciar racionamento de 5 dias sem água para 2 com água[5]. Nos dias com água a pressão é baixa e as pessoas começam a estocar em baldes e outos recipientes improvisados.
Os poços artesianos abertos no mês passado começam a operar, suprindo apenas demandas consideradas prioritárias como hospitais, escolas, etc.
A irrigação fica prejudicada e agricultores precisam perfurar poços em suas propriedades, encarecendo ainda mais os alimentos. Enquanto isso caminhões pipa vendem água a preço de ouro nas cidades afetadas.
Sobretaxa de energia elétrica é posto em prática visando a diminuição do consumo.
Com a limitação do uso da água e o aumento no preço da eletricidade, indústria e comércio agonizam, investidores perdem a confiança e a economia do Brasil, que já não andava bem,  começa a ter resultados negativos. A credibilidade do país no exterior é minima.
Com a baixa rentabilidade dos últimos meses empresas começam a dispensar funcionários e chamar férias coletivas. O entramos, de fato, em recessão. A economia se degrada e o dinheiro começa a perder o valor, dificultando ainda mais a situação para o cidadão médio.
Pessoas começam a procurar trabalho em cidades interioranas ou litorâneas ou em outros estados fora do sudeste que não tenham sido afetados, aqueles que podem começam a migrar.

Agosto em diante.
O racionamento de água e a debandada de parte dos habitantes tem algum efeito e consegue diminuir a queda do nível dos reservatórios que abastecem as regiões metropolitanas que, mesmo assim, permanecem críticos. Cortes no fornecimento de energia elétrica ocorrem por todo o país, episodicamente, para evitar um apagão.
Com a situação econômica delicada mais empregos são perdidos. Greves começam a ocorrer em vários setores devido às demissões.
O caos é cada vez maior nas grandes metrópoles, os protestos tornam-se mais violentos. Tendo que desviar contingente para conter a agressividade da população a eficácia das forças de segurança diminui e a criminalidade dispara. O clima é tenso. Cada vez mais pessoas tentam deixar as grandes cidades, principalmente São Paulo.
Com o impacto na economia a situação financeira do brasileiro médio fica delicada, o poder de compra cai e a qualidade de vida diminui. Todo o país começa a sentir os efeitos da recessão.
O governo federal oferece as Forças Armadas para ajudar os estados afetados no combate à violência.
As cidades interioranas/litorâneas do sudeste, que antes não enfrentavam situação crítica, começam a ter de pensar em medidas emergenciais de gerenciamento dos recursos hídricos e contenção da violência, fatores agravados pela migração repentina.
Medições indicam que o impacto ambiental causado pela seca no sudeste será maior do que o esperado e provavelmente se espalhará para outros estados.
Os governos estaduais tentam tranquilizar a população contando com o período de chuvas que deve se iniciar nos próximos meses, mas ninguém tem certeza se a natureza irá atender às rezas dos políticos.

...


Pode parecer pessimismo ou alarmismo, mas parando pra pensar, não é uma possibilidade irreal. Sigam o pensamento sobrevivencialista, torçam pelo melhor mas preparem-se para o pior, essa é a atitude mais prudente a tomar nesse momento.

---------------------------------------------------------
Referências e leitura complementar
1. G1, 02/2015 - Cantareira volta a cair após sete dias com mesmo nível.
2. G1, 01/2015 - E se o Cantareira secar? Veja fatos e a opinião de especialistas.
3. EXAME, 01/2015 - Governo abre licitação da água em Brasília.
4. VEJA, 01/2015 - O Brasil à beira do apagão: Furnas e Três Marias caminham para a paralisação.
5. REUTERS, 01/2015 - Racionamento em SP poderá ser, no limite, de 5 dias sem água por semana, diz Sabesp.

CENTRO DE PREVISÃO DE TEMPO E ESTUDOS CLIMÁTICOS (acesso em: 02/2015) - Estações do ano.
DCM, 01/2015 - Escolas fechadas, fuga da cidade, caminhões-pipa…: o cenário possível de São Paulo sem água.
SAPO, 02/2015 - Crise da água no Brasil ameaça oferta de alimentos.
ZERO HORA, 01/2015 - Efeitos da falta de água: resultados em queda e risco de demissões preocupam indústria.
ZERO HORA, 01/2015 - O Brasil conta gotas: entenda as causas e desafios da falta de água que se espalha pelo país.