9 de out de 2014

Considerações sobre a epidemia de Ebola


No momento em que escrevo este texto o Ebola já matou mais de 3.400 pessoas na África(1) e começa a pular para fora do continente registrando-se casos importados e o primeiro caso de contaminação pelo vírus fora do território Africano.(2)
Sem adentrar o questionamento sobre a demora e a ineficiência por parte das grandes potências em intervir na situação,(3) principalmente no início, questiono sobre as possibilidades e os possíveis impactos de uma epidemia de ebola no Brasil.
Longe de querer prever ou enumerar os impacto de uma epidemia de Ebola no Brasil, este artigo visa somente levantar questionamentos quanto à nossa vulnerabilidade à atual epidemia, que tem se mostrado mais perigosa do que as autoridades nos diziam inicialmente.
Lembrando minha visão de que o sobrevevivencialista não deve, jamais, deixar que o medo se apodere e faça disso uma paranoia. Mas, partindo do princípio de que é melhor estar preparado e nada acontecer do que ser pego de surpresa, sem preparação alguma, numa situação calamitosa, acredito ser válido realizar sempre uma avaliação de riscos e calcular os possíveis cenários de crise que possamos enfrentar.


Primeiramente, aos que não assistiram, recomendo assistir ao ótimo vídeo do Júlio Lobo explicando sobre o Ebola em seu site.(4)

As autoridades do mundo todo vêm afirmando que é pouco provável a epidemia do vírus Ebola em outros  países além da África. Justifica-se que a rápida expansão da epidemia naquele continente se deve aos costumes e às precárias condições sanitárias (o que também é verdade). Mas em relação à prevenção de uma epidemia internacional, as autoridades vêm ignorando fatores óbvios e bastante perigosos que deveriam estar sendo levados e consideração.

Mobilidade
A alta disponibilidade de vôos de um continente a outro pode, facilmente, transportar o vírus para outras regiões do planeta, como já aconteceu.(5) Hoje em dia centenas de aviões cruzam os oceanos, levando e trazendo pessoas das mais diversas localidades, inclusive dos países afetados pelo vírus. Apesar do Itamaraty ter recomendado aos brasileiros que evitem viagem aos países afetados,(6) ainda não há restrição de vôos entre essas localidades e o Brasil, ou seja, pessoas infectadas poderiam estar chegando livremente neste mesmo minuto.

Apesar de o Ebola ser uma doença que não é transmissível pelo ar (através de simples respiração), mas somente via contato com fluidos corporais, o que reduz as chances de contaminação, a possibilidade de que um indivíduo contaminado espalhe o vírus a outras pessoas é real e pode se dar de maneiras simples, através de partículas de saliva contaminada espalhadas por tosse ou espirro, por exemplo.
Ainda há o período de incubação do vírus, que é de até 21 dias em que o paciente pode apresentar os sintomas, tornando menos provável sua transmissão imediata, mas também tornando mais difícil a sua detecção, aumentando as chances de que uma pessoa contaminada passe facilmente de um país a outro e inicie um novo foco da doença. Basta uma pessoa no metrô de uma metrópole, como São Paulo, para iniciar uma verdadeira catástrofe.
E pode piorar se imaginarmos uma pessoa contaminada tossindo ou espirrando num avião com outros 50 passageiros. Só esse último cenário poderia causar a disseminação da doença por vários territórios, ao mesmo tempo, em níveis exponenciais.


Mutação
Enquanto a ocorrência de uma mutação de origem natural que afete o modo de transmissão do vírus é sem precedentes, imprevisível e, de acordo com especialistas, bastante improvável, ela existe.(7) É preciso ter em mente que quanto maior o número de indivíduos infectados mais alterações genéticas estão ocorrendo nas gerações subsequentes do vírus. Estatísticamente falando, quanto mais pessoas infectadas maiores são as possibilidades. Se um vírus com esse poder tornar-se transmissível por vias aéreas a coisa vai esquentar.

Bioterrorismo
A manipulação genética de agentes biológicos com o objetivo de transformá-los em arma de destruição em massa não é novidade, é uma possibilidade que esteve sempre presente em tempos modernos e apenas se acentuou nos dias de hoje pois, além da atividade de grupos terroristas ser muito maior, há mais facilidade de acesso à todo tipo de informação em comparação a 20 anos atrás.
A possibilidade já foi cogitada(8)(12) e podemos verificar que seria mais fácil do que se pensa a disseminação do Ebola por meios tecnológicos ou não, como sistemas de ventilação e terroristas suicidas contaminados. Até mesmo uma sabotagem ao combate à epidemia atual seria uma estratégia relativamente simples e eficaz para grupos terroristas obstinados como o Estado Islâmico.


Possibilidade de Ebola no Brasil
O perigo da migração do vírus, da África para outros continentes, principalmente por viagems aéreas, já foi constatado.(9) Apesar disso isso os aeroportos brasileiros continuam abertos a vôos vindos dos países atingidos pela epidemia. As autoridades brasileiras agora dizem que o risco de ebola no Brasil é muito baixo, mas fizeram questão de afirmar que não é zero.(10)
Um fator em nosso favor é que a condição média no Brasil, em questão de saneamento básico e hábitos de higiene, difere bastante da maior parte da África, além de também não compartilhamos de sua extrema descrença no sistema de saúde e suas ritualísticas tribais que tem contribuído para a disseminação do vírus por lá. Em contraponto, a aglomeração de pessoas nas grandes capitais, e o fluxo de pessoas em aeroportos é um fator que dificilmente pode ser controlado sem que se feche as fronteiras aéreas aos países afetados.
Estrategicamente, a disseminação do vírus por aqui em comunidades mais pobres seria bastante perigosa já que as condições são mais precárias e o acesso à saúde mais restrito.
Será que o governo está tomando medidas preventivas suficientes para conter a entrada do vírus no país? Temos que admitir que o SUS carece em eficiência, pessoal e equipamentos, será que tem estrutura para conter uma epidemia de um vírus tão poderoso? Já tem gente dizendo que não.(11)

Afinal, indico o filme abaixo, do History Channel, onde eles fazem uma simulação dos prováveis efeitos de uma epidemia em nível nacional.



Minha opinião sobre o doc é de que o final é um pouco simplista, acredito que muito mais poderia ocorrer no meio tempo entre o SHTF e a reorganização da sociedade, mas com certeza vale a pena conferir.

Referências e leitura complementar
1. International SOS - Ebola charts.
2. G1 - 10/2014 - Enfermeira espanhola testa positivo para Ebola em Madri.
3. Caos e sobrevivência - 08/2014 - O que "eles" estão escondendo?
4. Sobrevivencialismo - 08/2014 - Como se prevenir contra o vírus Ebola.
5. Notícias UOL - Liberiano com Ebola morre nos EUA.
6. Valor - 08/2014 - Itamaraty recomenda evitar viagens aos países afetados pelo Ebola.
7. Telegraph - 10/2014 - Ebola 'could become airborne': United Nations warns of 'nightmare scenario' as virus spreads to the US [en].
8. Forbes - 05/2014 - Ebola as ISIS Bio-weapon [En]
9. EXAME - 10/2014 - Aeroportos americanos vão medir temperatura de passageiros.
10. Valor - 10/2014 - Risco de ebola no Brasil é muito baixo, mas não é zero, diz governo.
11. Jornal Metro - 08/2014 - Brasil não está preparado para um eventual surto de ebola.
12. R7 - 10/2014 - Ebola pode se transformar em arma biológica na mão de jihadistas suicidas do estado islâmico.
Insurance journal - 10/2014 - Scientists Calculate Risk of Ebola Spreading to France, Britain [en].

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