28 de mai de 2014

SHTF School - 1. Introdução

Este é o primeiro dos posts do Blog SHTF School, o qual passarei traduzir ocasionalmente.
Eu não possuo nenhuma relação com o site ou seu criador nem clamo quaisquer direitos sobre o conteúdo dos textos ou mesmo sobre a tradução, mas seria interessante para a divulgação do blog se citado o nome SHTF Brasil em caso de cópia da tradução.

Segue o texto:

OK, eu quero compartilhar com vocês a minha própria experiência.

Eu sou da região dos Balcãs e, como alguns de vocês devem saber, foi um inferno aqui entre 92-95. De qualquer maneira, por um ano inteiro eu vivi e sobrevivi em uma cidade sem electricidade, combustível, água corrente, distribuição de alimentos ou de quaisquer bens, e sem qualquer tipo de lei ou governo organizado. A cidade foi cercada por 1 ano e, nessa cidade, a situação era realmente SHTF.

Nós não tínhamos exército organizado ou força policial, haviam grupos de defensores. Na verdade qualquer um que tinha uma arma lutava pela a sua própria casa e por sua própria família.

Alguns de nós estavam mais bem preparados, mas a maioria das famílias só tinha comida para alguns dias. Alguns de nós tínhamos pistolas, uns poucos tinham AK-47 quando tudo começou.

De qualquer forma, depois de um mês ou dois, as gangues começaram com seu trabalho sujo. O hospital parecia um açougue, a força policial desapareceu, 80 por cento dos funcionários do hospital voltaram para casa. Eu tive sorte, minha família era grande naquela época (15 membros em uma casa grande, 5-6 pistolas, três Kalashnikovs [AK-47]) então a maioria de nós sobreviveu.

Lembro-me da força Aérea dos EUA jogando rações a cada 10 dias (deus abençoe a américa por isso) como ajuda para a cidade cercada, mas não era o suficiente. Algumas das casas tinham pequenos jardins com alguns legumes, a maioria não tinha nada.

Depois de três meses rumores começaram sobre as primeiras mortes por fome e por hipotermia. Nós tiramos cada porta ou moldura de janela de casas abandonadas para nos aquecer, eu queimei todos os meus móveis. Muitas pessoas morreram de doenças, principalmente por causa de água contaminada (dois dos membros da minha família). Usávamos a água da chuva para beber, várias vezes eu comi pombos, uma vez eu comi um rato. Dinheiro não valia nada.

Nós trocávamos coisas, o mercado negro funcionava, alguns exemplos: por uma carne enlatada pode você poderia ter uma mulher por algumas horas (soa mal, mas era a realidade). Eu me lembro, a maioria das mulheres eram mães desesperadas. Velas, isqueiros, antibióticos, combustível, baterias, munição, rifle e alimentos, claro, lutávamos como animais por isso.

Em uma situação como essa muitas coisas mudam, a maioria das pessoas viravam monstros, era feio. A força estava nos números, se você estivesse sozinho em casa, você provavelmente seria roubado e morto, não importa o quão bem armado.

Enfim, a guerra terminou, mais uma vez, graças a América (e, novamente, deus abençoe os EUA por isso).

Não importa qual lado estava certo na guerra.

Foi há quase 20 anos, mas acreditem, para mim é como se fosse ontem, eu me lembro de tudo e  acho que aprendi muito. Eu e minha família estamos preparados agora, eu estou bem armado, abastecido e educado.

Não é importante o que vai acontecer, terremotos, guerras, tsunamis, aliens, terroristas, o importante é que algo vai ser.
E, pela minha experiência, você não sobrevive sozinho, a força está nos números, se você é próximo de sua família, se prepare com eles, escolha seus amigos sabiamente e se prepare com eles também.


Traduzido por SHTF Brasil. Original em inglês em SHTF School.

16 de mai de 2014

Greves da PM e a nossa frágil camada de civilidade

Estando na segurança da minha casa, longe do ocorrido, achei muito interessante observar o fenômeno social que se abateu sobre algumas regiões do Brasil nesses últimos meses, as paralisações da Polícia Militar na Bahia e em Pernambuco. Nós, sobrevivencialistas ou não, podemos tirar uma lição valiosa destes acontecimentos.

Há em nosso país uma fina camada de civilidade entre os seus residentes. Digo residentes, e não cidadãos, propositalmente, pois um povo cuja cidadania é negada pelo estado não passa de um conjunto de servos que residem sob os mesmos domínios (e eu não falo só dos miseráveis).
É graças, em boa parte, a essa fina camada de civilidade que o estado sobrevive, negando às pessoas a plenitude de seus direitos ao mesmo tempo em que finge protegê-las da barbárie criada por ele próprio, passando a impressão de que se importa com o bem-estar social. Essa camada é protegida por, basicamente, uma entidade, a Polícia Militar.

Num dos artigos que estou escrevendo, que é sobre como se proteger da violência urbana, eu uso (com algumas ressalvas) o termo "bandido" para me referir aos criminosos que vemos frequentemente nos noticiários. Os que atacam nas ruas escuras, nos semáforos, esquinas, ou assaltam casas e estabelecimentos. Mas os acontecimentos recentes me fizeram lembrar de uma coisa: Na prevenção da bandidagem há de se levar em conta que o povo brasileiro, no geral, é um povo que tende à bandidagem. A desonestidade e comportamento violento já são intrínsecos à cultura brasileira.

"E a galera com medo de apocalipse zumbi, vai ser é apocalipse BR."
(Obs. deixo claro que não compactuo das opiniões do autor do vídeo quanto à pena de morte e nem de sua sugestão de punição para crimes de estupro). 

O brasileiro mostrando a que veio(1)(2)(3):

e a melhor:
A Polícia Rodoviária Federal (PRF), a Companhia Independente de Operações e Sobrevivência na Área de Caatinga (Ciosac) e a Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil, foram os responsáveis pela prisão do grupo. Moradores do município afirmam que muitas casas foram saqueadas por pessoas da comunidade."(4)(Grifo meu).
Resumindo, o bandido não é só aquele que te assalta na rua. Ele está por todos os lugares, mora na casa ao lado, frequenta os mesmos lugares que você, e ainda te fala bom dia. Quando a sua única amarra é rompida, ele mostra sua verdadeira face. Ele aproveita para tirar a maior vantagem possível da situação, mesmo que isso signifique prejudicar outra pessoa. A cultura do jeitinho evoluiu e hoje significa "se dar bem sempre que possível". Como já disse antes, estamos vivendo tempos complicados, expostos a cada vez mais violência sem muitos meios de defesa, tanto contra os abusos do estado quanto contra a violência do bandido.

Essas paralisações da PM me lembraram o filme "Uma noite de crime":

. . .

O Brasil é um barril de pólvora com vários pavios acesos, enquanto o governo apaga um, acaba acendendo outros dois. E nós também somos culpados disso(5).

Até quando essa situação vai se sustentar?

Ps. Há boatos notícias(6)(7) de paralisação nacional das polícias no dia 21 de maio, se isso for verdade, fiquem atentos.

Ps.(2) Sei que fugi um pouco do tema do sobrevivencialismo, mas é que conforme fui escrevendo e as ideias foram se organizando na minha cabeça, acabei percebendo que cabe também ao sobrevivencialista, além de se preparar e aprender novas técnicas de sobrevivência, tentar mudar as coisas pra melhor, mesmo que seja incitando os outros à reflexão.

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Referências e leitura complementar:

1. TRIBUNA DO NORTE, 05/2014. PM encerra greve no Recife, após saques e arrastões.
2. JORNAL DO COMERCIO, 05/2014. Greve da PM chega ao fim com saldo de saques, arrastões e prisões no Grande Recife.
3. O ESTADO DE S. PAULO, 05/2014. Saques, arrastões, mortes: greve da PM faz Exército ocupar ruas da Bahia.
4. G1, 2014. Justiça decreta ilegalidade da greve da Polícia Militar em Pernambuco.
5. PENSAR NÃO DÓI, 2012. Povo que não tem virtude acaba por ser escravo.
6. O GLOBO, 05/2014. Polícia marca paralisação nacional para próxima quarta-feira.
7. COBRAPOL, 04/2014. Paralisação nacional da força policial dia 21 de maio.


FOLHA DE SP, sem data. Hue hue hue.
O POVO, 2014. Greve da PM deixa rastro de medo e violência em Salvador


11 de mai de 2014

Apresentação do Blog

A evolução da tecnologia trouxe a nós, humanos do século XXI, uma vida de relativo conforto e segurança. Por outro lado, trouxe também uma grande dependência tecnológica, desconexão do indivíduo em relação à natureza, e a perda da noção de responsabilidade individual (no sentido de cuidar de si mesmo e dos seus, da própria subsistência). Para se ter uma ideia, até meados da década de 60, mais da metade da população brasileira vivia em áreas rurais e possuía certo nível de subsistência. Em apenas 50 anos a concentração de pessoas em áreas urbanas subiu para mais de 80%(1).

O aumento da complexidade da nossa sociedade, graças às novas tecnologias de produção e à concentração das pessoas em cidades, levanta novas questões. Hoje a grande maioria das pessoas vive em centros urbanos e depende do bom funcionamento dos sistemas de produção e distribuição para ter alimentos, energia e bens de consumo. Uma complexa cadeia de serviços interdependentes que abastece cada loja e mercado do país.

Para o homem comum não mais importa de onde vêm as coisas e como se produz tudo o que ele consome, há uma aceitação de que haverá sempre um mercado à sua disposição, basta a ele cumprir o seu papel como cidadão: trabalhar e fazer seu pé de meia para que possa consumir. Mas as coisas não funcionam dessa forma, na natureza não há garantias. Os alimentos ainda precisam de terras férteis e água para crescer, demandam uma mão de obra enorme para o seu  cultivo e sofrem com variações climáticas. Os produtos industrializados também dependem de uma enorme cadeia, desde a extração dos recursos naturais, sua transformação em insumo, o fabrico do produto final e seu transporte para os pontos de venda. De forma análoga acontece com a distribuição de energia, que depende de uma enorme infraestrutura para ser distribuída. Os sistemas de distribuição são como uma uma malha de correntes, toda interligada por elos.

Mas e se ocorrer uma quebra em algum ponto dessa corrente?



Fazendo uma observação um pouco mais apurada podemos perceber que há uma dependência quase total de nossas vida nesses sistemas e tecnologias. Dessa forma nos encontramos num jogo de roleta russa no qual, caso estes sistemas falhem,  podemos sofrer desde pequenos incômodos até grandes alterações em nosso estilo de vida.

Já pudemos observar alguns episódios, como no início do ano quando ocorreu o apagão que deixou mais de três milhões de pessoas sem energia em várias regiões do país devido à alta atípica de consumo de energia(2).
Depois disso veio a seca inesperada, que tem deixado os reservatórios das hidrelétricas "no talo", deixando incerteza sobre o abastecimento das grandes cidades no futuro próximo. Por motivos políticos ainda não foi posto em prática o racionamento, mas a possibilidade de que ocorra em 2015, com maior severidade, é altíssima.(3)
Também nesse ano pudemos assistir à greve da polícia militar na Bahia que, com um saldo de com 59 homicídios e inúmeros furtos e roubos em dois dias(4)(5), mostrou o quão tênue é a linha que nos separa do caos total.
Finalmente, seguindo as tendências econômicas mundiais, temos a instabilidade da economia nacional trazendo uma provável recessão(6)(7)(8)(9), que está sendo cada vez mais camuflada por um governo corrupto com tendências totalitárias.

Mas aí você pode me dizer "acontece, foi falta de planejamento, ano que vem vai chover de novo" ou "tudo bem, não precisamos fazer alarde por causa de um pouco de racionamento" ou talvez "a greve da polícia foi um caso isolado", etc.

Mas e se?

Se a merda batesse no ventilador agora...
você estaria realmente preparado?


E se, ano que vem não chover o suficiente? E se a economia afundar e virarmos uma Argentina ou uma Venezuela?(10)(11)(12) E se houver um colapso social(13).



O exemplo do meteoro aqui ao lado é um exagero, mas a possibilidade dos demais eventos que coloquei, não são tão irreais quanto parecem. O cidadão comum não dá muita atenção aos possíveis desdobramentos dos fatos.

Estes são apenas alguns exemplos mais extremos considerando algumas ocorrências recentes. Mas cada um tem o seu ponto de vista e as suas razões para se preparar. Muitas vezes as razões podem ser bem mais simples e pessoais. Por exemplo, um pai de família, trabalhador assalariado, pode pensar que se perder seu emprego amanhã seria boa ideia contar com seu estoque de três meses de comida para poder avaliar calmamente a situação, com a barriga cheia, e não entrar em desespero pelo menos por esse período.

Não é necessário criar cenários apocalípticos para se tornar um sobrevivencialista. Basta ser realista e ter em mente que merda acontece. Não somos especiais, as situações calamitosas que acontecem ao redor do mundo podem, também, se abater sobre nós a qualquer momento. Estamos passando por um momento na história onde a complexidade de nossos sistemas  está ultrapassando nossa capacidade de gerenciá-los de forma harmoniosa. Está se criando uma atmosfera de grande instabilidade, ambiental, política e econômica. São tempos em que as coisas estão mudando rapidamente e tudo pode acontecer num futuro não tão distante. Temos que estar preparados para as possibilidades.

 pode ser que o ganho astronômico de popularidade do movimento de preparação e sobrevivencialismo nos EUA e no Reino Unido, e que vem se popularizando recentemente no Brasil, pode ser um sinal indicador da percepção coletiva de que o momento pelo qual estamos passando, globalmente, demanda cautela.


Esse pensamento é parte do porquê aderi ao sobrevivencialismo como uma filosofia para a minha vida. Digo "parte" pois mesmo antes de conhecer sobre o sobrevivencialismo já achava que o "pensar no futuro" não se limitava só a estudar e acreditar que seria "feliz para sempre", mas também considerar que as coisas podem dar errado, que empecilhos podem ocorrer na minha caminhada.


Crises são inevitáveis, em maior ou menor escala. Sejam elas pessoais ou sociais, catástrofes naturais ou causadas pelo homem, elas virão em algum momento. E eu pretendo passar por elas da forma mais confortável (ou menos desconfortável) possível. Na minha ótica, este é o pensamento sobrevivencialista, sobreviver, e garantir a sobrevivência dos meus, sob qualquer circunstância e com o mínimo de sofrimento.


. . .


O termo SHTF, que nomeia o blog, vem da expressão em inglês Shit Hits The Fan, que significa "merda bate no ventilador", ou seja, um evento que possa nos deixar numa situação de sobrevivência, seja a perda de seu emprego ou uma guerra nuclear.


Eu criei este blog com a intenção de compartilhar minha visão e aprender mais, incitando discussões sobre o tema e realizando traduções, do inglês, de bons textos da área.

Sinta-se a vontade para comentar e debater.

Victor Z.

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Referências e leitura complementar:

1. UOL Geografia, 2006. Urbanização do Brasil: Consequências e características das cidades.
2. O DIA, 2014. Mais de três milhões são afetados pelo apagão que atingiu 11 estados.
3. ELETROSUL, 2014. Adiar racionamento trará déficit severo em 2015.
4. FOLHA DE SP, 2014. Salvador tem saques e mortes na segunda noite após greve da PM.
5. G1, 2014. Salvador registra 59 homicídios e 159 carros roubados durante greve da PM.
6. YAHOO Finanças, 2014. Mark Mobius vê risco de recessão no Brasil.
7. ESTADÃO, 2014. PIB brasileiro pode crescer menos de 1% em 2014 se houver racionamento.
8. ESTADÃO, 2014. Para especialista, Brasil corre risco de recessão em 2014
9. REUTERS BRASIL, 2014. Nobel de Economia vê risco de recessão global em 2014.
10. FOLHA DE SP, 2013. Falta de produtos bate recorde na Venezuela.
11. FOLHA CENTRO SUL, 2014. Povo passa fome na Venezuela.
12. EL PAIS, 2014. A Venezuela alcança a inflação mais alta do mundo.
13. GALILEU, 2014. NASA destaca possibilidade de colapso da civilização


IMB, 2011. Em que ponto do ciclo econômico está a economia brasileira?
SOBREVIVENCIALISMO, 05/2014. Sobrevivencialistas X Preparadores: Qual a diferença?
GUIA DO SOBREVIVENTE, 11/2013. Básico do sobrevivencialismo e preparação - pt 1.